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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Eva, Buenos Aires à meia luz

E a voz de Carlos Gardel o abandonou pela uma hora e trinta da manhã de 13 de março de 1920 no palco do Café Belgrano, na esquina da Florida com Nove de Julho, e ninguém sabe quem anotou os detalhes com tanta precisão [talvez algum bacana que trocasse o dia pela noite e viciado em apostas de boxe no Luna Park]. Carlos cantava o terceiro tango da noite, uma versão adulterada e letrada de La Cumparsita e a nota Fá Maior se recusou a sair.

A plateia não o vaiou [não porque não merecesse mas por puro constrangimento] o que tornou o silêncio ainda mais pesado. Saiu à rua decidido a se tornar contador ou comerciante de peixe.

Foi então que ela lhe pediu um cigarro. A borda de seu vestido tinha plumas, usava cabelo curto e uma piteira [afinal era Buenos Aires, de madrugada, nos anos 20]. Ele lhe perguntou seu nome, ela disse que escolhesse um – e Carlos a denominou Eva, depois Evita – nada a ver com a futura ídola de três décadas depois mas a coincidência não deixa de ter seus especuladores.

Evita levou Carlos à calle Corrientes, 348, segundo piso. Ela tocou um tango na vitrola e tirou o arranjo do cabelo. Foi a primeira coisa que ela tirou, das muitas, e ao final restou, diante de Carlos, apenas Evita e seu delicado perfume de rosas, talvez um gelatti.

Anos depois Gardel cantaria aquele momento à meia-luz. A única diferença para a letra da canção é que havia mesmo um gato. Que dormiu por todo o momento, felizmente.

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