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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Allan apaixonado

Edgar Allan Poe [previsivelmente] apaixonou-se por uma moça numa tela à óleo  pendurada em um quarto de hotel de náuseas em algum subúrbio de Baltimore em uma tempestuosa noite de novembro em 1840 e só essa frase já contém muitos erros: não era uma tela mas uma litogravura; não havia tempestade mas manhã de sol torrando; e não era uma moça mas várias.

A Gravura [a qual ele apurou ser reles imitação de outra, francesa, do tempo de Luís XV, esta por sua vez a cópia de uma cena em uma parede de Pompeia] retratava três jovens a entreter sete cavalheiros [e os cabalísticos números três e sete deram voltas na cabeça de Allan].

Uma delas, na posição dos pôneis, demostrava todo seu potencial amoroso a entreter dois cavalheiros, um em cada ponta de seu jovem corpo. Outra punha literalmente mãos à obra [há sempre pessoas sem medo do trabalho, pensou o contista] em dois companheiros naquele momento de agrado. A terceira [talvez mais conservadora] coloquiava sobre um cavalheiro, outros dois a agradar em respeitosa fila.

Edgar Allan Poe [pela vez única] esqueceu relógios, assassinos venezianos e a Santa Inquisição. Viu-se a si mesmo naquela cena de vida talvez excessiva. Para afastar-se de pensamentos tão comuns escreveu mais um poema sobre corvos.

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