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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A Metafísica do Nada

Fernando percorria a capital em algum monótono anoitecer de 12 de outubro de 1931 [ou 1945 ou 2117, Lisboa é sempre tão parecida, cópia de si mesma que se repete ao longo dos anos como um velho programa que o antivírus não consegue livrar de seu bug]. Saiu do Café A Brasileira e não falou com ninguém. Desceu o Chiado, subiu a Avenida da Liberdade, pareceu-lhe que alguém gritava Viva Salazar mas não virou o rosto. Na Almirante Reis cruzou com três nepaleses e 75 alemãs de mochila e pensou em atalhar pela Antônio Pedro mas desistiu.

Na Alameda Fernando sentou-se ao gramado [o chafariz ao longe com estudantes a trazer de casa o vinho pois é mais barato] e pensou nas janelas, iluminadas ou não, e como a vida era estranha, ou excessivamente simples.

Sorriu a pensar no que ocorria por detrás dos estores e cortinados. Cenas de amor a cinco, talvez. Ou a um. Ou uma. Ou qualquer maluquice, talvez mesmo a do matrimônio. Chicotes ou dores de cabeça, em possibilidade. Quem sou eu, a metafísica se quis intrometer mas ele a enxotou como inseto. Voltou a pensar nos casais. De seis, nove, talvez mais.

Fernando se viu de novo Pessoa só, na Avenida, sentindo-se cercado de libidinagem em cada alcova ou escadaria. Na pastelaria Estrela do Chile pediu três Pastéis de Nata.


Devorou-os a contemplar a velha estátua, no centro da praçola. Concluiu que havia bastante metafísica em não pensar em nada.

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