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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

22 de Maio de 1907 – Dankon



Dankon – disse-me Lázaro. E eu [em princípio] não compreendi. Não a palavra – o vocábulo que ele pronunciara se aproximava por demais do alemão Danke para que eu deixasse de reconhecer que me dizia Obrigado

Não compreendi por que me agradecia. Naquele porto do Recife naquele quente mês de maio [como são quentes todos os maios de todos os meses no Recife] não reconheci a barba e [acima de tudo aquele olhar de quem já viu tudo, e não teme o que ainda poderá vir a ver] eu não lhe fizera nada. Sequer ajudara com sua mala - vinda de um cargueiro polonês de nome impronunciável que ainda lembro como Zbigniew

Conversamos – a circular na beira do cais e sem que ele demonstrasse nenhuma pressa de ir a um hotel. 

Conversamos – e conversamos em alemão, depois em inglês [eu com minha natural deferência para com forasteiros] e finalmente falávamos [eu sem pensar muito] em língua ondulante como ondas ou minha própria língua – falávamos em português. Espantei-me que o soubesse. Ele se espantou que nesta terra se falasse a língua das curvas e das dunas – pois como sabia muitas, era-lhe difícil saber sua língua natal.

Soube-lhe [naturalmente] o nome Lázaro. Instado ao sobrenome, disse-me: Sou quem espera. E sem perceber, falávamos em língua que misturava todas. Como eu disse, sem perceber.

[Talvez com excesso de pieguice] espero a volta de Lázaro. Chamam-me o Esperador. O Esperantista. O Esperanto.

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Esta crônica se encontra com as outras da mesma série em  http://inexistentebrasil.blogspot.com.br
 

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