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quinta-feira, 1 de junho de 2017

O Coração sem controle

Amália reza ajoelhada na Igreja das Mercês. Reza: Faça com que eu goste do Dr. Ricardo. Faça-me gostar da pessoa certa.

Amália tem vinte e oito anos. O Dr. Ricardo tem quarenta e nove e se chama Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva. Quem conheceu Portugal até poucos anos atrás lembra-se de ter visto as fachadas verdes do BES – o Banco Espírito Santo – em não poucas esquinas. O Banco era da família dele. Desnecessário mais falar sobre sua ótima situação financeira.

Amália canta desgraças de amor e simplicidade da vida do campo e na cidade lusitana, Minhos e Alfamas; in a word, canta fados. E não só: Amália Rodrigues mantém sólido o título de maior fadista de sempre. Não era pobre – já cumulava discos e paradas musicais não só na velha pátria como no Brasil e alhures. Ao contrário dele, nascera sem folga monetária.

A romancista Sônia Louro coloca esta cena tanto improvável como romântica na nonagésima página do seu Amália, a biografia romanceada da fadista. Quase como de praxe, a família da cantora tentou bloquear a exibição do filme Amália (2009), alegando que a relação entre a artista e o banqueiro não era bem assim.


Algo que sem ele metade dos romances do século XIX não sairia nem das prensas nem das canetas, desde Ana Karênina até as Memórias Póstumas passando por Eugênia Grandet: o aforismo Ninguém controla o coração. Amália controla sua preciosíssima garganta mas não seu órgão pulsante ao peito. Daí o drama. Dramalhão, talvez. Nem por isso menos importante para quem passa por ele. Até cantoras famosas a quererem se apaixonar por banqueiros.

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