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sábado, 29 de novembro de 2014

098 - O ilógico relógio Kashmir

Os relógios precedem Descartes. [Seria (no entanto) exagerado dizer (como querem alguns) que o grande relógio de Kashmir precede todo o Tempo – pois o mesmo só existe desde anos 700 ou 800, segundo as menos piores estimativas]. Dele restava apenas [em 1899, quando sobre ele se falou pela última vez] uma pintura [de detalhes (quase) criminosamente explícitos e uma (esmaecida) cor verde, apesar da neve que, de maneira pouco esperável, o circundava].

Único no mundo, o relógio de Kashmir não tinha números – de fato, os períodos passados se dividiam em pequeno período, grande salto e você está depois do tempo [este último de interpretação assaz complexa].

O povo que se regulava por ele [o talvez mítico povo Kashmir] o temia mais que respeitava – de fato, o passar dos ponteiros os enchia de um terror cuja explicação desafia antropólogos. [Sendo que a melhor versão, talvez incorreta, era de que se sentiam criticados, não pelo tempo que desperdiçavam, como os ocidentais, mas pelo que aproveitavam – o que quer que isso quisesse dizer].

De fato o grande relógio [que não era (em verdade) assim tão grande] assumia o papel de um conjurador que trazia as coisas da vida, abundantemente, sem nenhuma avareza, até as desgraças – como um Édipo de peças de metal e sem nenhum esforço para evitar gregas tragédias. 

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