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domingo, 23 de novembro de 2014

094 - Sem Discurso e sem Método

O improvável nome de Rehmahn Karamchuk abrigava o homem que [dizem] precedeu o método cartesiano em cerca de mil anos. Habitante de país esquecido da Ásia Central, o sábio sobrevive [além de pedaços de tiras de pergaminho] em três pinturas de inusitado tom sépia quase vermelho [de fato apenas uma, estando as demais quase indistinguíveis].

Inevitáveis lendas cercam sua vida: de que escreveu sua obra em apenas três horas [algo fisicamente impossível]; de que suas noções básicas já estavam em sua grandiosa mente antes mesmo dele nascer; de que sua tendência ao estudo se devia a uma repelência a mulheres [com outra corrente afirmando o oposto – que colecionava amantes]; e que, quando meditava, caía neve sobre sua cabeça [um detalhe que não deixa de ter ares de comicidade].

De fato, esse pouco conhecido quase-profeta [espécie de Tirésias sem deuses para aturar] sofria de uma vontade de devorar o mundo – se não com os dentes [o que com improvável surpresa verificou ser impossível] com o conhecimento.

Não o fez [no entanto] com os chatíssimos silogismos que caracterizaram seu sucessor – e sim com uma aceitação do mundo comum é – como caos, balbúrdia que pode ser vista como ordem, pois as tentativas de pôr nele ordem apenas concluem por acrescentar mais balbúrdia ao que era confuso. Descartes o admirava e [no fundo] se remoía por seu inspirador ter compreendido o universo bem melhor que ele – embora tal versão não seja isenta de opositores.

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