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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

089 - O Cavaleiro: seu duplo

Por setenta vezes [dizem] os cavaleiros duelaram. [Na verdade foram apenas quatro vezes: mas podiam ser sete mil, o número não mudaria em nada o prélio largamente fake]. O campeonato [chamemo-lo assim] reuniu todos os ingredientes das histórias de fada: passava-se na Idade Média; em um meio-dia temperado por uma tempestade que, embora vizinha, nunca chegava; suas capas laranja [tão inexpressivas quanto a luta em si] traziam um desbotado que denotava uma pós-velhice, como se os lutadores [de idade indefinida] tivessem passado da longevidade sem se lambuzar da sabedoria a esta normalmente atribuída.

Os cavaleiros não se odiavam. Tão semelhantes, pareciam ser o mesmo [viviam no ócio, mal sabiam garatujar o nome, violavam pré-adolescentes e apostavam corridas destruindo a colheita dos coitados]. Por parecidos procuravam radicalizar suas diferenças: um dizia ser o defensor dos pobres; outro, que mudaria tudo. [Não defendia nada, não mudaria coisíssima – todos fingiam, ninguém acreditava, mas seguiam a fingir].

Buscavam a fama [dizem – talvez nem isso]. Lutavam sem Ira [ou com Ira fingida]: Budas sem serenidade, para uma eterna plateia que desprezavam [ou talvez nem chegassem a desprezar].

Sua popularidade [se é que se pode falar disso] baseava-se no terror que infundiam aos humildes – de que o outro [ao vencer] faria com eles tudo o que [todos sabiam] qualquer um dos dois [inevitavelmente] faria.

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