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domingo, 9 de novembro de 2014

088 - O Peregrino sem término

Druot de Focherville caminhava por uma França ainda-por-vir. [De fato, a Toulouse e a Carcassonne que cascavilhava naqueles anos 700 ainda pouco passavam de promessas e casebres]. Um inevitável poema [em toscos eneassílabos] guardou a memória do Peregrino. Falavam que parecia viver em um tempo só dele, depois da vida pessoal; que vestia uma [esperavelmente] surrada capa salmão; que uma conveniente ventania parecia preceder a cada uma de suas aparições; que suas orações pareciam suspender a passagem do tempo; e que sua gula [anteriormente destinada aos faisões ao molho menta e aos vinhos fermentados da Beócia, para não mencionar jovens libertinas de alvas carnes] hoje se voltava às penitências com chicote.

Outro lado [talvez mais obscuro] não restou [no entanto] inteiramente na sombra. Édipo sem cegueira, o Peregrino nunca cessou de vergastar desde a usura até as sedas, numa incessante crítica a todos e tudo. Não deixou de ter os usuais inimigos, que [numa avant-première da Santa Inquisição] conseguiram arrastá-lo para uma fogueira, em um não definido ano, em um dia que a tradição [sem nenhuma prova] jura ser nove de novembro.

Não deixou palavras nobres que dessem um fim à sua peregrinação [para não pequena decepção dos heresiófilos]. Quedou dele apenas a cara de espanto, a mesma que fazia nas caminhadas pelas pequenas vilas de uma França ainda inexistente – como se de uma surpresa por o mundo ser como é.

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