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sábado, 8 de novembro de 2014

087 - Hamlet, seu fantasma

O Fantasma de Hamlet não morreu – e o ensaio com esse nome [publicado numa gráfica de baixa qualidade na freguesia lisboeta dos Arroios no péssimo 1 de setembro de 1939, dia que começou a Segunda Guerra] talvez seja republicado [algum tempo depois do futuro – dizem os detratores].

De fato, as incoerências começam na capa – de um amarelo pouco heroico, com a posição do sol indicando o fim da manhã – apesar da neve no topo de pouco prováveis montanhas ao fundo.

O conteúdo choca mais: de fato se trata de uma continuação do drama shakespeariano, com Hamlet continuando sua triste carreira depois de morto, e já com seus cinquenta [não se sabe se de nascido ou de fantasma]. Cristo sem missão, o [chatíssimo] príncipe agora se pergunta se o seu sacrifício foi certo – e este é o objeto do livro.

Às vezes se deixa levar pelo desejo da desgraça do outro – nomeadamente do ex-rei Cláudio. Em outros, porém a ira se desvanece e ele se metamorfoseia no velho jovem príncipe já tão conhecido, multiplicando receios, considerado por muitos um resumo do drama humano e por outros [silenciosos porém talvez em maior número] um chato com ou sem galochas, que por sinal ninguém mais usa.

Ou seja, o fantasma consiste na continuação do vivo, e esta [talvez decepcionante] monotonia talvez explique o nenhum sucesso da obra.

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