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sábado, 18 de outubro de 2014

085 - Nasce ontem o mundo

Oswald Spengler em dezembro de 1917 afirmou que os hindus desconheciam radicalmente a historicidade do mundo. Asoka [em época tão recuada que pareceria anterior ou posterior a todos os tempos] não previu essa frase [afinal, uma previsão é um reconhecimento da existência do tempo] mas a mesma, e Spengler, e você, todos faziam parte do pensamento do sábio hindu.

Escreveu-o em certo poema. Na verdade meia centena de estrofes sem título  nas quais [além da recorrente menção à cor vermelha e à neve] destaca-se a criação do mundo.

Estranha criação, subordinada à do próprio poema: segundo o texto, o seu autor [nunca nominado, sempre alheio, espécie de Buda sem nem mesmo a indiferença, e que paradoxalmente afirma escrever antes do próprio nascimento], em período indefinido porém breve de um só dia escreveu que o mundo surgiu ontem, com memória, ruínas e livros sagrados, tudo o demais sendo ilusão, inclusive eu e você.

Uma crítica de corte socializante [que o autor alemão, diga-se, não faz] acusa Asoka de, em seu poema, ser indiferente aos problemas sociais [de certa forma injusta, pois ele é indiferente não só aos pobres mas a tudo]. Mais consistente é a desconstrução do conceito de autor, pois, se Asoka escreveu a criação do mundo, Asoka não poderia existir. Só se [como afirmam alguns, aliás com limitado sucesso] que o hindu representa o Terror diante do Nada, e a vontade invejosa de competir com ele, criando Algo. Quem teria tais sentimentos, no entanto, é questão aberta.

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