.

.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

084 - O Mundo Pequeno

José Maria de Eça de Queirós [dizem] detestava mulheres. E [segundo as mesmas (pouco confiáveis) testemunhas] se dividia entre o desejo e repulsa a elas e a culpa de senti-lo. Pressionado por tal dilema, recolheu-se a construir um pequeno mundo de letras, que mal passasse da sua Freguesia das Janelas Verdes em Lisboa – e se estendendo só até a vizinha São Jorge dos Arroios.

Em uma noite de maio de 1875 planejou um romance em que todos os pecados femininos receberiam o merecedor castigo. Foi o único momento em que saiu [de alma, senão de corpo] de suas freguesias lisboetas. Ele se passaria na Alta Idade Média, em um país inominado [supreendentemente cheio de neve]. A heroína [tão pura que (segundo Ramalho Ortigão) parecia nunca ter nascido] rememora [em um tempo não tão longo] a sua vida antes de decidir-se a se lançar em um lago de águas fulvas [no qual alguns viram um símbolo da Ira -  talvez da ira de Eça, talvez da protagonista contra si].

Não tão pura para os padrões da época afinal – tivera um filho fora do matrimônio. Como Maria, com a qual semelhava em mais de um detalhe – até em que sua vida fora de sofrimento e chatice [para expiar tal desvio]. E nisso se distanciava da mãe do próprio Eça, que nunca aceitou o filho tido nas mesmas condições. Ao final não se sabe se se lança ou não.

As mãos do escritor jogram o manuscrito [depois de lido por três amigos] no Tejo. Por excesso de modernidade [no final indefinido] ou por semelhança demais com quem o escreveu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário