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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

083 - Caspar David nega a si

Dizem que Caspar David Friedrich [em passeios na mata em volta de Dresden] decidiu que queria se negar. [Os homens querem afirmar sua marca no mundo – ele desejava o oposto – o que o fazia especial]. Considerou [como é óbvio] a pistola ou o formicida. Decidiu-se por estrada melhor.

Aprendeu [não sem dificuldade] a misturar tintas e engendrar perspectivas.

E [para se negar] passeava [pelos mesmos arredores de sua cidade natal] e pintava paisagens. Nada de novo, desde Watteau e Praxíteles. Mas nas suas o homem [se existe] esmaga-se sob uma natureza que não se importa com ele. Tempestades e penhascos diminuem a figura humana sob uma indiferença azulada, em um clima de eterno fim de manhã de uma época que nunca se define – talvez depois do tempo.

O não-se-importar do mundo retratado se comunica ao pintor [e ao espectador]. Este se vê sem emoções diante das minúsculas formigas humanas, como um Buda sem meditação, ou criança que renunciou aos sonhos de adulto, especialmente o de busca da fama.

As montanhas e cemitérios de Caspar [diz certo misto de crítico e detrator] revelam uma inveja do homem pelo poder inexorável da natureza. O pintor responderia [segundo admiradores] que não se trata de inveja ou admiração mas terror. Esta [no entanto e é claro] se trata de versão apologética.

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