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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Resenha de Livro: A Sagração da Primavera, de Modris Eksteins

As bases culturais do Armagedon

EKSTEINS, Modris. A Sagração da Primavera: a Grande Guerra e o nascimento da Era Moderna . Rio de Janeiro: Rocco, 1991. 480p.

Um balé estreia em certo teatro de Paris; um grupo de jovens corre em direção a pedaços de chumbo que voam - e são mortos. Em sua obra de estreia o professor de história letão-canadense Modris Eksteins procura interpretar a Primeira Guerra Mundial evitando as tradicionais perorações sobre batalhas e generais. Intentou o ângulo da História Cultural. No momento em que a Guerra completa cem anos de início, vale uma revisão do seu ponto de vista.

A época do conflito trouxe não só ela mas também a vanguarda cultural. Para o autor esses fatos não são só contemporâneos mas interligados. Como momento simbólico escolheu a Sagração da Primavera, balé que causou furor cerca de um ano antes da catástrofe. Obra vanguardista, buscava o escândalo - fugia das convenções de graciosidade do balé clássico e tratava de tema considerado até então pouco estético: o assassinato de uma jovem, sacrificada para que a primavera pudesse florescer. Para o autor a ligação é clara - o sacrifício de uma jovem - o sacrifício de milhões de jovens em ataques para ganhar metros na guerra.

Até então pouco estético. Eksteins afirma que o Mundo do Século XX preconizou a estetização da vida - inclusive do que em princípio causava repulsa, como a morte e os conflitos armados. Essa nova visão da vida - e do seu contrário - formou uma base de mentalidade imprescindível para o massacre aparentemente sem fim.

Estetizado como seu tema, o livro se divide em Atos. O primeiro se refere à mentalidade cultural e seu papel nos inícios do conflito. O ponto alto consiste na muito pesquisada descrição do que aconteceu na cidade de Berlim na última semana de julho e na primeira de agosto de 1914, um contexto que geralmente é ignorado pela torrente de livros que trata das declarações de guerra. Muitas obras descrevem à exaustão um ou outro telegrama do Kaiser Guilherme ou do Chanceler Bethmann-Hollweg. O que eles não informam é que pelas janelas esses homens podiam escutar urros da multidão e bandas de música marciais clamando por guerra. Isso o autor faz de forma segura.

Um homem solitário chega em seu avião - no Terceiro Ato o livro salta nove anos e quase literalmente aterrissa junto com Charles Lindbergh no aeroporto de Le Bourget em Paris em 1927. Esta parte trata das consequências da guerra - que para o autor ultrapassaram em muito o plano material. O aviador foi paparicado não só por ser um herói, mas principalmente por ser um herói solitário. O homem só, individualizado, quase desconectado. Esta, talvez, a maior herança do conflito.

Como todo tema muito explorado a Primeira Guerra Mundial deixa a sensação que de alguma forma o principal ainda está por se dizer. Pode-se, e talvez deva-se, discutir se a influência de fatores culturais não é superdimensionada pelo autor. Mas o livro estabelece um ponto de vista surpreendente e produz momentos deliciosos de leitura - estes, talvez o maior galardão de uma obra. 

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