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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

072 - O Durão Detetive

As nuvens do meu Havana fazem rodinhas no ar. Passo muito da vida no hospital – metade bala, metade bebida. Sou eu – Sam Spade, a.k.a. Dashiell Hammett, a.k.a. Humphrey Bogart. De repente a encrenca bateu à porta. Era uma zinha loura bonita e metida a mandona...

O Falcão Maltês não começou assim – e talvez devesse. [De fato, a anti-heroína Mary Astor podia ser zinha mas não era loura (nem muito menos bonita)]. O epítome do detetive durão dos anos de crise oscilava [e ainda o faz, pois congelou no tempo] nos seus quarenta anos; nos seus filmes, a noite se eternizava; o clima pesado acabava por potencializar o preto e branco da parca iluminação; herói e vítima da de um exagerado senso de pureza, o herói das tramas noir sofria como um Cristo com certo toque de autopiedade, um indignado com molho masoquista diante da megalópole – e seus cafetões, prostitutas e barmen.

Humphrey não acreditava nas mulheres. Seria boa retórica dizer que não acreditava em nada - mas não corresponderia ao real. O patético cavaleiro das ruas possuía um sendo pequeno, porém efetivo de decência – um companheiro morre, deve-se fazer alguma coisa; algum promotor se corrompe, deve-se denunciá-lo; uma garota foge para viver com um bookmaker – avisa-se à mãe.

Dom Quixote sem o discurso medieval, recebe as mesmas pancadas que este. Tem como recompensa [no entanto, e em vez de um título de duque] um beijo fugidio de alguma garota de beleza famosa e moralidade idem.

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