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domingo, 24 de agosto de 2014

071 - Antígona sem galochas

A brochura Antígona: chata sem galochas [atribuída falsamente a Alexandre Herculano] driblou [sabem Deus ou a Ditadura salazarista como] a censura da Polícia Interna de Defesa do Estado e foi publicada [sem indicação de autor] pelo Editorial História Lusitana [na verdade, uma casa pirata] em janeiro ou fevereiro de 1961. Mais diálogo burlesco que peça de teatro, o tal texto perora contra a personagem de Sófocles. Retrata-a [na verdade] como uma maluca.

Tão repetitivas quanto suas palavras são suas situações: a protagonista veste sempre um [monótono] manto preto; as cenas parecem sempre passar em um céu de crepúsculo eterno; fisicamente jovem, a princesa de Tebas insiste em repetir frases de lugar-comum, que parecem lhe dar idade além da velhice; uma ventania [não explicada no enredo] sempre esvoaça seu manto [que tem sido interpretada com a Ira frente à injustiça – ira esta que, segundo os críticos, parece não levar a lugar nenhum]; e uma eterna crítica ao resto de todos os seres humanos [exceto a si mesma] perpassa todo o texto [e segundo os mesmos críticos, o toma quase todo].

Como a Antígona original, o Antígona: chata... consiste em tragédia. E até aí não foram poucos os que apontaram nuances – a personagem-título parece mostrar uma ansiedade quase eufórica em se dar mal. Nisso não se afasta muito de Sófocles – sendo claro que por poucos tenha sido levada a sério a ideia de que tal pastiche constitua a tradução de um original perdido do dramaturgo grego .

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