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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

069 - Hamlet, o chato

Poderia ter duas cenas a história de Hamlet [de fato, a tragédia toda poderia não durar mais que vinte linhas]: ele recebe a revelação de que o Rei matou o rei anterior, seu pai. Ele vai ao atual rei, crava-lhe uma adaga nas costelas. Algum sangue, um grito, cai o pano, aplausos. O público de volta às suas casas em cinco minutos.

Não aconteceu assim na peça de Shakespeare nem no Fingalitch escrito por Ossian, suposto primo do protagonista, de fato não uma obra mas uma sub-história dentro do Antigo Poema Épico em língua gaélica, escrito em antigos tempos pelo retromencionado Ossian e publicado apenas em 1761. [Que nem Ossian, nem Fingal (o herói do poema) e nem Fingalitch (seu sobrinho) tenham existido, e que (todos) não passassem de invenção do execrável farsante James Macpherson passa sem se dizer].

O poema de Ossian/Macpherson [que, segundo alguns e com pouca credibilidade, inspirou o bardo inglês] apenas ressalta a sesquipedal insuportabilidade do jovenzinho. Em suas cenas parece ser sempre crepúsculo, com menção a um [pouco crível] céu esverdeado, além de uma ou outra tempestade igualmente deslocada; como o outro Hamlet, uma irritante autopiedade o permeia, com afirmações repetitivas da própria pureza diante de um mundo vil, e de uma indignação que sua falta de vontade torna pouco críveis – um Buda sem serenidade.

O aristocratazinho chato de Ossian [assim como o outro mais famoso] enche o tempo [e o pobre espectador] com frases significativas. E eis a questão.

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