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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

067 - Com Tigres e Labirintos

Borges sonhava com Tigres e Labirintos [na verdade Borges não sonhava – aqueles sombrios anos 1930, uma Buenos Aires que semelhava sempre em eterna madrugada de preferência com gotas de tempestade, o tom eternamente laranja dos filmes nos cinemas da Calle Corrientes – nada o empurrava ao onírico]. O filósofo [que na verdade não era – nem comediante, nem romancista] passeava pelo mundo – no fundo para rejeitá-lo. Os labirintos [muito falados e jamais vistos] e os tigres [relegados aos zoológicos] lhe pareciam mais interessantes.

Seus personagens [colossos carentes de traços de personalidade] pareciam ter todos a indefinível idade dos quarenta anos; a crítica [embora silente] ao mundo era seu único vestígio de sentimento [além da inveja que atormentava os protagonistas da metade dos seus contos]; seu única admiração [muitas vezes reversa e marcada pela ausência] era nem tanto o Cristo como o sacrifício deste.

Para os heróis de Borges [e para seus tigres, e para seus labirintos] a única saída seria a expectativa [talvez inspirada nos sombrios becos transversais da Avenida Nove de Julho]. Isso se uma saída fosse desejável, o que [para o autor] merecia ser objeto de longo [e inconcluso] debate.

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