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domingo, 17 de agosto de 2014

066 - Se Deus fosse uma mulher

O grande charme do Derrick é sua absoluta falta de charme – esta frase [dita por ninguém] bem define Derrick aus der Reihe, a série de TV engendrada pela Zweites Deutsches Fernsehen a partir de 1974. Apesar do ano, os casos do Delegado protagonista e de seu auxiliar Harry Klein possuem um inevitável gosto de anos 1960, visível na narrativa arrastada [meio à la nouvelle vague], no tom fosco-amarelado da fotografia, e em que as cenas parecem sempre se passar no meio da tarde, com as nuvens fracas inviabilizando quaisquer comparações entre a meteorologia e o estado de espírito dos personagens.

Stephen Derrick [Delegado] tem seus inexpressivos cinquenta anos e circula por uma Munique sem monumentos reconhecíveis, mero pano de fundo para a trama. As [poucas] garotas belas mal passam de Antígonas do dia a dia que [desgraçadamente para elas] pouco são além de alvo de tiros e pancadas. A Avareza de sensações esconde uma indignação contida, de quanto mal se pode conter em uma sociedade capaz dos homicídios que [afinal das contas] formam o cerne do programa.

Em um dos episódios [não o menos atraente] um dos suspeitos lança a frase A maior parte das mulheres não é muito interessante; esta é, e outro conjectura Se Deus fosse uma mulher. Costumeiramente o programa lança frases fortes, depois perdidas quando [ao final] o crime se solve e o interesse do espectador murcha como um balão. Deixam [no entanto] um suave tom de crítica – este, o sutilíssimo legado da série.

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