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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

064 - Infeliz de não ter existido


O teólogo John Dominic Crossan se questiona sobre que sentido teria se perguntar Eu ficaria triste se não tivesse existido? E eu pergunto: E o Mundo?

Imagino um universo não-existente. Naturalmente, nossa imaginação não-treinada vê um espaço preto – duplamente errado pois não há o que ver, nem nada, nem ninguém para vê-lo. A dança dos astros [tão típica das imaginações sobre um começo de Mundo] não teria lugar.

Um pré-mundo [ou não-mundo] só se pode pensar por ausências. O Mundo atual se marca por excepcionalidades – um não-mundo o seria pela prevalência uniforme do banal: um meio-dia eterno; uma neblina fraca, sem mesmo a fascinação do perigo; a decepção do imaginário observador, que descobriria ser a uniformidade o pior dos labirintos.

O Universo a-existente poderia até mesmo ter um deus às avessas – uma divindade do não-ser. Indiferente como Buda – sem a serenidade deste; avaro – avarentíssimo – a ponto de não criar nada; com uma idade sem o atiramento da juventude nem a cautela da velhice.

A não-existência pressupõe a inexistência do ter e ser – ambos típicos de algo que não é o nada. Poderse-se [no entanto] imaginar [pois imaginação não ocupa espaço, não se cunha no tempo, portanto resvala na inexistência] uma só coisa que o não-universo teria: um enorme temor do que poderia ter sido.

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