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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

062 - Cidade, o poeta te busca

Charles-Pierre Baudelaire buscava a fêmea ideal [na verdade (dizem os chatos de sempre) não buscava coisa alguma- nem mesmo o ennui]. O poeta da Paris semidestruída [apesar de viver lá pela segunda metade dos 1850] parecia viver antes do tempo: os detalhes rosa do colete misturados a uma cabeça erguida em orgulho, como Apolo, pareciam lembrar que vivia [como o mundo] em estranha infância sem lençóis azuis.

O dândi [que em verdade não era] procurava banalidades; hora favorita – o meio da tarde; tempo predileto – as nuvens pesadas. Contemplava a Velha Paris que não é mais - e as cidades que mudam mais rápido que o coração dos homens e [diante daquelas pessoas que picaretavam o antigo] se submergia de discreto desejo de desgraça alheia.

Pluvioso, irritado contra a cidade inteira, o bardo [apesar disso] se euforizava [contra] as demolições do Barão Haussmann. Na sua busca, topava com os desgraçados deste mundo, como um gato sobre o telhado procurando uma liteira e agitando seu corpo magro e sarnento – ou com os desgraçados do outro – a alma de um velho poeta errando na goteira com a triste voz de um fantasma friorento.

Conjecturam [sem base nenhuma] que o Cisne em frente ao Louvre era na verdade o coração do poeta. E o poeta [como Paris] mudou, mas na melancolia nada: nem blocos, nem velhos bairros, nem andaimes.

O poeta procurava a cidade. E [dizem talvez com excessivo sendo poético] continua a.

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