.

.

domingo, 10 de agosto de 2014

060 - O Metal e o Diabo

Simon Patiño adentrou as Eternas Regiões no dia 20 de abril de 1967 [se é que as ditas possuem calendários]. Morrera vinte anos antes, mas [por alguma razão que nem os mais habilidosos cabalistas conseguem desvendar] o curto caminho à morada eterna toma todo esse tempo.

Augusto Céspedes [o escritor] descreveu uma entrada fanfarrônica, com monstros de lama negra e reis da diablada multicoloridos. A realidade [se é que se pode falar de realidade nesse caso] foi cinzenta – melhor, foi fosco-avermelhada, a cor do estanho quando puro demais. O rei desse mineral soube concentrar em si a riqueza [e deixar desprovida dela os mineiros da Bolívia]. Sua vida [diz o escritor] semelha uma história de fadas apenas com as bruxas. Tirésias de olhos muito abertos e sem nenhuma vontade de prevenir desgraças alheias, a morte o colheu em Buenos Aires e o levou para a famosa caverna. Durante um tempo que não precisar quanto [se é que se pode falar de tempo em tal situação] Simon Patiño aguardou, distraindo-se a recontar mentalmente ações de bancos e barras de estanho 99,99% [pois, mesmo na velhice não perdera tal vício]. Ensaiou um discurso: sua avareza seria, na verdade, um humano medo do futuro – e poderia ser perdoada. [Uma previsível neblina o cercava].

El Diablo enfim veio. [Simón teve quase euforia]. Em forma de velha senhora. Convidou-o a um chá. A demora de saber seu destino o fazia suar. E suava e suava. E a expectativa o sufocava. E depois desse sonho malévolo, Simón Patiño não acordou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário