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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

057 - As palavras sem as coisas

Kolata-Kon-Tiki [a comunidade naturista] não se situava em nenhuma ilha no Pacífico mas no litoral da Flórida – sendo a sua errônea localização mais uma das lendas que a cercou. [Outra se referia à sua época – não surgiu em 1933, como revolta contra a crise que devorava bolsas e vidas, mas dez anos depois, em pleno conformismo guerreiro].

De fato esse movimento [para o qual a nudez era apenas um acessório] não possuía nenhum dos atributos do nudismo tradicional. Diziam seus [não muitos] adeptos que procuravam a separação entre as coisas e as palavras – e que a mistura de ambos causava todos os males da vida. A simplicidade da vida [e a recusa às roupas] eram apenas uma consequência de tal veleidade glotológica.

Seus rituais [descritos pelas duas únicas antropólogas que aguentaram a monotonia até o final] consistiam em danças [tão lentas que pareciam parar], em meio a troncos pintados de branco; realizavam-se em previsível sol de meio-dia; a [decepcionante] idade dos membros oscilava pelos indefiníveis quarenta; talvez por isso [bocejam as antropólogas] exibiam um entusiasmo semelhante a Buda meditando.

Dois dos três únicos artigos que escreveram se destacam pela criticidade: os rituais demonstrariam uma onipresente autopiedade, além de uma excessiva crença na própria pureza – que trairia certo terror do mundo. No terceiro artigo, as tais antropólogas quase que se redimem e deploram o fim da experiência, dissolvida pelo FBI em 1946, sob suspeita de quase-comunismo.

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