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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

056 - Terra Monótona

Dizem os deuses [mas os deuses nada dizem] que um dia eles próprios [aborrecidos da Divina Falta do que Fazer] resolveram criar [na Terra]  um lugar à sua imagem e semelhança.

Beneficiados pela [não menos divina] capacidade de ver o futuro, vislumbraram [como em cinema] a vida de seu Lugar Criado: pintaram todos os dias com um sol tão forte que dava um tom laranja desbotado a tudo; o período mais triste [longe de ser a madrugada de Baudelaire] era a tarde: onde tudo morria, sem renascer completamente depois. Podendo por seus poderes soberanos colocar este mundo em qualquer lugar, puseram-no depois do Tempo, como forma de que pudesse estar presente em todas as épocas. O aborrecido Édipo [embora deus não fosse] restou entronizado como padrinho do recanto – inclusive por suas [não menos que] irritantes avareza e senso de autopiedade.

A própria juventude [alhures tida como feliz] ali decepcionava: numerosos e pragueados pelo ócio [tal como os deuses e sem o sê-lo] perdiam seu tempo [que semelhava sem fim sem ser infinito] em disputas que, se tão sangrentas como as guerras da Ilíada e de Troia, tinham muito menos charme. Isso a juventude masculina. Quanto à feminina, via deusas quando se olhavam no espelho – mas só no espelho.

A existência de um paraíso não-perfeito contrasta com a visão judaico-cristã [afinal vitoriosa] de um Deus que só cria o que é bom – o que talvez explique a pequeníssima voga de tal lenda. 

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