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sábado, 2 de agosto de 2014

055 - Hamlet: nem eu

Shakespeare [dizem] não sabia quem era. Nem John D. Horner, que deu entrada no Sanatório de Lower Norwood no dia dois de agosto de 1939 pretendendo ser um certo príncipe dinamarquês que hesitava entre matar ou não o tio [e recitando uma língua ininteligível que (depois se descobriu) era o monólogo de Hamlet de trás para diante]. De fato o tal jovem homem [que parecia nunca saber que horas eram] às vezes dizia amar uma moça de família inimiga da sua; ou então afirmava ser uma mulher que ajudara seu marido a eliminar o rei para empalmar o trono; noutras ocasiões, fazia discursos a César esfaqueado.
Tal [excesso de] teatralidade terminou por tornar impossível – não a sua vida, que parecia muito bem – mas a de esposa, vizinhos e colegas, que o socaram na instituição. De fato [e parafraseando outra vez] não faltava método em sua loucura: nas peças que recitava [ou vivia] mencionava sempre detalhes ou cenários de cor branca [a cor (pensaram) dos hospitais ou sanatórios]; mesmo que em Londres imperasse um [raro] sol lancinante, preferia os trechos que se passam na penumbra; um temor [tão vago que parecia se algo que nunca ocorreu] atormentava todos os seus heróis e heroínas. Não obstante [segundo os médicos e enfermeiras que o atenderam] em sua representação semelhava o deus Thor em overdose de orgulho em mistura com receio.
A versão de que morreu em um bombardeio alemão parece demasiado shakespeariana para ser levada a sério.

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