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quinta-feira, 31 de julho de 2014

053 - Os Gafanhotos devoram-te

Alguém escreveu [chutam que lá pelo ano 650 d.C.] o mais monstruoso livro de receitas da História. Esse alguém [outro chute] seria Dubcek dos Montes Carpáticos, do qual [além do nome de ressonâncias anacronicamente tchecas e da menção geográfica] se sabe que era religioso, quase adolescente, tinha uma forte piedade por si mesmo, e só isso. [E se sua obra não tivesse sido encadernada junto com o exemplar da Cosmographia Christiana de Cosmas o Indicopleustes constante na velha Biblioteca de Florença, nem isso se saberia].

A obra [na verdade um ensaio] mostra [em sua enjoativa e azulada página de abertura] um gafanhoto gigante a devorar um homem. Monstruoso porém lógico: não ensina homens a triturar, fritar e desconjuntar por água fervente plantas e outros animais, mas a estes como devem preparar seus algozes como repasto.

Interessam mais os conselhos gastronômicos: homens [para serem saborosos] devem ser preparados de madrugada, de preferência tempestuosa. O deus inspirador dos cozinheiros deve ser [não sem surpresa] Apolo, por sua busca da sensação perfeita e de sua indiferença por tudo o que a isso não diga respeito]. Afirma-se que a arte de preparar gente consiste em ato de generosidade, talvez supremo. [As descrições de fritagens, espetos e desossamentos são por demais gráficas para serem aqui reproduzidas].

Miraculosamente [dizem] a cozinha do baixo Danúbio [e por extensão, de um terço da velha Europa] veio de tal delírio – com as esperáveis mudanças de ingrediente, lógico.

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