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terça-feira, 22 de julho de 2014

046 - Volta ao Mundo em uma cesta de pão

Cosmas deu a volta em uma ilha e isso aconteceu em um ridículo crepúsculo rosa pelo ano 600 ou 650. Seu barco [levando o (na época) trintão e charmoso comerciante] mais dançava que navegava por oceanos sem nome, semelhante a um Tirésias sem modéstia. [Pois dizem (não sem malícia e alguma razão) que o audacioso egípcio buscava (além das moedas) a fama eterna].

Inevitáveis nuvens de tempestade o levaram para o largo de uma ilha, para onde [mais por lassidão que por instinto desbravador] seus marinheiros o deixaram vogar. Percebeu [não sem ser algo desiludido] que a tal terra descoberta não tinha flores [fora uns raminhos chochos] nem pássaros [exceto gaivotas magrelas]. De fato não tinha nada exceto uma montanha no seu centro, que se erguia em pináculo – e a curiosíssima característica da noite cair como lâmina, quase sem transição – e do dia surgir do mesmo jeito.

Depois de meses de tédio, o próprio tédio fez Cosmas descobrir o segredo, de tanto pensar. Aquela era montanha do Centro do Mundo. O sol dava voltas, não no Universo, mas nela. O fenômeno que conhecemos por Noite não existia – era apenas a ilusão causada pelo sol se escondendo atrás da montanha. [A mesma ilusão se dava no fenômeno que as gentes chamavam Dia].

Retornando ao Sinai, Cosmas [sem que se saiba por quê] tornou-se monge e dedicou o resto da vida a desenhar esquemas de como seria o Mundo. O que gerou não poucos risos, pois sua montanha sempre lembrava [a alguns engraçadinhos] uma grande cesta de pão.

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