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domingo, 20 de julho de 2014

044 - Mudo Mundo

Lázaro Luís Zamenhof sonhou na madrugada de 22 de julho de 1867. [De fato a excessiva precisão de tal sonho tem sido o principal argumento de seus opositores]. Teria visto um mundo branco, perpassado por um vento zero; as pessoas [muitas delas crianças como Lázaro Luís] dedicavam-se a uma vida de perfeição [ou à busca dela].

Acordou e aquele sonho não representou mudança. De fato o esqueceu. Quando o relembrou [já adolescente] pensou que a mudez não era solução para nada, e quando o relembrou de novo [já adulto e com fama de sábio, uma espécie de Tirésias sem cegueira] lembrou que tal mundo de mudez [e uma talvez excessiva seriedade] dissimulava uma tristeza que por sua vez encobria um temor do que poderia vir a ser.

Tomou então da pena [naqueles tempos antes do teclado] e escreveu um ensaio sobre uma sociedade que se aperfeiçoaria pela comunicação. Não escreveu, tentou: descobriu [e lembrou pela terceira vez do velho sonho] que a comunicação perfeita não se podia fazer pela língua [repositório da experiência de uma parte do mundo, necessariamente limitada]. Se um mundo perfeito não poderia ser mudo, esta não-mudez só poderia vir de outra forma de falar.

Escreveu e das palavras que saíram [embora muito tivessem das familiares francês, latim e inglês] não entendeu nada, ou pouco – só com o tempo descobriu que uma nova língua o atingira. E só uma língua única poderia [talvez] resolver o problemas da mudez ou excesso de linguagens – e que esses problemas eram [na verdade] o mesmo.

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