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quarta-feira, 16 de julho de 2014

041 - História de dois sacripantas

Jaufré Rudel batia em bêbados, roubava moedas de viúvas e chutava gatinhos só por prazer. [Era, em suma, um pústula, embora as crônicas do Século XII pouco ou nada digam a respeito]. Quando não surrupiava bolsas defendia algum cantando poesias [péssimas, diziam]. Já nos seus vinte, buscava a fama e senhoras casadas [mais fáceis, ria].

A [jovem] Condessa de Trípoli não era flor que se cheirasse e nem gostava muito de flores. Enganava seu marido, como uma Antígona às avessas em busca da não-integridade perfeita. Vestia [por ironia] vestidos de casto rosa – tudo o que não era.

Cronistas não registraram o encontro entre os dois [e talvez tenha sido melhor assim, para a pureza das gerações futuras] – ou melhor, registraram-no de outra forma. Jaufré Rudel [de medíocre versejador batedor de carteiras] tornou-se menestrel dos bons – e apaixonou-se pela Condessa, sem nunca tê-la visto. Atravessou o Mediterrâneo e [inevitavelmente] quase se afogou em naufrágio. Chamada para ver um desconhecido que só pronunciava seu nome, a [belíssima] Condessa veio vê-lo numa estalagem – um crepúsculo de nuvens cor de sangue a tudo envolvia. Aproximou-se e [num casto beijo] selaram seu amor eterno, enquanto até o vento no seu assobio e os passarinhos no seu pipilar celebravam a beleza e a tristeza da cena.

A segunda versão da história [obviamente] prevaleceu – corroborando os que dizem que, entre duas mentiras, escolha-se a mais interessante. Uma tese [diga-se de passagem] não destituída de cinismo.

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