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terça-feira, 8 de julho de 2014

033 - Daguerre a si mesmo

Louis Jacques Mandé Daguerre fotografou a si mesmo naquele 8 de julho de 1835 [era sete da manhã quando começou – os sais demoravam muito naquele tempo – e uma neblina descia sobre Paris dando um sombrio tom azul a tudo – acentuado pela chapa química].

Louis Jacques Mandé Daguerre vivia seus sólidos quarenta – e não via muito graça no tudo nem no nada. Ser o ser, achava-se cego [como Tirésias] – e, como ele, queria enxergar – e cria que aquela máquina o faria ver mais que os outros homens. [Mais que orgulho, tinha gula – de paisagens, emoções, laços de fita – que de alguma forma prenderia a si mais que em mera recordação].

Ao revelar a chapa viu [entre um banal jarro de imitação grego e uma planta feia] um outro homem – não a si mesmo. O espectro [não merecia nome melhor] tinha um semblante de quase soberba autopiedade [como quem não atingirá nunca o Nirvana, e se orgulha de não o fazer].

Louis Jacques Mandé Daguerre [as unhas roídas de cristais de prata e os cabelos que começavam a contaminar-se da mesma cor] contemplou o homem [que não o contemplava – e que também tinha seus quarenta – e o cabelo embranquecendo]. Entristeceu-se – não pelo seu invento revelar pouco, mas por revelar demais – e decidiu concentrar-se em jardins e fotos posadas – para não fotografar nenhuma alma [o que quer que fosse isso] como acabara de fazer com a própria.

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