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segunda-feira, 7 de julho de 2014

032 - A Contemplação da Dama Nua

Geneviève desfez o último laço e a última peça caiu ao chão e sua nudez invadiu os olhos de Sir Lancelote do Lago. [Sir Lancelote não era seu marido – ela se casara com o Rei – a quem Lancelote devia obediência]. O Occitanólogo René Nelli [não em alguma reserva] descreve esta cena [que de resto afronta todos os padrões da cavalaria] em contestado apêndice do seu O Romance da Flamenca.

O episódio completo [que não ocupa mais que alguns minutos] ocorre na improvável hora das oito da manhã. Se o momento era banal, o resto não: o céu coberto de nuvens de tempestade cor violeta e a melosa música de trovadores que se ouvia ao fundo apontava para grandes acontecimentos.

Geneviève [esplendor dos vinte anos] não veio Vênus, mas Geneviève. [De fato, não trazia no rosto e no corpo luxúria ou culpa]. Lancelote [até então preso no pântano da Hiper-retidão] não a contemplou – deixou arrebatar por ela [tempestade em forma de cabelos cacheados que deslizavam por seus ombros, continuavam pelos seios quase rosados, brincavam-lhe pelo umbigo e vinham rastejar-lhe quase aos pés].

A Falta de Medida [mesura] [o horror de todos os amantes] não os tomou naquele momento – nem em momento nenhum. Geneviève continuou a ser ela mesma, Lancelote o mesmo. O mundo [no entanto] deslocou-se – e tudo o que nele não era os dois amantes passou a ser pano de fundo.

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