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domingo, 6 de julho de 2014

031 - O Príncipe vê a Glória

O Príncipe André Bolkhonski confessou buscar a Glória. [O Príncipe André Bolkhonski nunca existiu]. E o fez no campo da batalha de Austerlitz, horas antes da própria, sob um céu de fiapos e um estranho sol quase cor de laranja, como uma cena de cinema [que ainda não existia] em um campo vazio. [Cena (por sinal) inverossímil, pois o campo de Austerlitz então regurgitava de soldados].

Um rapaz de seus vinte e tantos, o Príncipe [que (se tivesse existido) seria um oficial do exército do Czar] não pensou no pai [de resto um velho chato], na esposa Lisa Meinen [à qual dava tanta importância quanto às ervas que via] e nem mesmo à pátria [pela qual teoricamente queria se sacrificar]. Pensou nem em si, mas no orgulho de ser-se – a quintessência de tal pecado [se é que o pecado, tão tolo, chegue a ter cinco essências].

Uma bala francesa [no fim da manhã seguinte] esmigalhou-lhe alguns ossos [não os mais importantes] e, se não lhe concedeu a visão na cegueira [como a um Édipo dos tempos napoleônicos] ao menos o encheu de uma vontade de esperar o futuro – não um futuro de ideais nem de pátria [nos quais, desde os últimos cinco minutos, não mais acreditava] mas uma expectativa em si mesma, da qual a fama [nem mais nada] faziam parte.

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