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quarta-feira, 2 de julho de 2014

027 - Maximiliano sonha

Maximiliano Francisco Maria Isidoro Robespierre teve um sonho [abandonadas foram as hipóteses de os sonhos terem sido trinta, ou sete]. Nele [previsivelmente] viu trinta cabeças. [Não era um dia quente na Revolução Francesa – tirando dois enforcamentos, nada anormal em Paris].

A banalidade [na sua versão mais elevada] percolava o sonho do deputado jacobino. As cabeças [ainda juntas aos corpos] dispunham-se como numa peça de teatro; algum sangue [não muito, tendo em vista as circunstâncias] gotejava em um canto. [Ao contrário do que se poderia imaginar, não era madrugada mas um sólido meio-dia, com uma improvável e fina camada de neve cobrindo os Quais do Rio Sena].

Maximiliano pensou nos seus trinta anos [na verdade já completara trinta e três]. Não o tomava nenhum desejo de violência; os heróis acometidos de uma sufocante hiper-retidão [como os Sete guerreiros a invadir a cidade de Tebas] o enchiam não raiva mas de tédio. [Um tédio que permaneceria à solta na mesma ville, para ser colhido por Carlos-Pedro Baudelaire cinco décadas depois].

Ajeitando a peruca [era, no fundo, um conservador] e perturbado pelo sonho, Maximiliano Isidoro definiu-se: sou um indignado. E isso lhe pareceu justificar tudo, e tranquilizou-se.

Lembrou daquela noite anos depois, ao assinar vinte e nove condenações à guilhotina. Pensou: serei o trigésimo.

Não o foi – seu aliado e comparsa Saint-Just perdeu a cabeça antes, estragando [embora não de todo] o caráter premonitório do sonho.

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