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sexta-feira, 13 de junho de 2014

008 - Vladimir vê o Anjo

Vladimir viu uma imagem no princípio de uma manhã de neblina [com estranha aura rosa ao céu]. Krasnoiarsk [alguns dizem Irkutsk] dormitava naquele 1882 [ou 3].

A aparição não quis semelhar anjo [veio com roupas e rugas de velho marinheiro e cuspindo de mascar fumo] e nem chegou sem aviso: pouco antes ao jovem lhe veio uma [pouco comum] vontade de escrever sonetos. [Imbuído de suas ideias hipergenerosas de amor aos destituídos, pensou em escrever sete, sobre os Sete Contra Tebas, heróis como ele gostaria de ser].

O marinheiro [que não surpreendentemente trazia um balde de rum bem curtido] lhe perguntou [e respondeu sem dar oportunidade]:

Você quer salvar o mundo? Você quer salvar o mundo. Rapazinho, digo-lhe uma novidade, talvez duas. O mundo não quer ser salvo. Você vê o forte a oprimir o fraco? A pisar-lhe nos polegares? A tratá-lo como escória? E contempla o pobre justificar isso? Não, esqueça suas teorias. Esqueça os filósofos. O oprimido quer isso. O pobre, o amassado, o humilhado. Eles querem. Não tente entendê-los. Não tente se entender. O ser humano quer o pior para si. Talvez pelo pior em si. Viva, beba, ganhe e respire. Cuide-se – e parou a engolir mais rum.

A aparição não sumiu. Foi o próprio Vladimir que se afastou, decepcionado. E por 197 minutos [ele contou] decidiu mandar os proletários às favas e viver a própria vida.

Mas só por 197 minutos.

Depois Vladimir Ulianov, o Lênin, prometeu que, quando crescesse e fizesse a Revolução, ordenaria fuzilar 197 burgueses.

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