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quarta-feira, 18 de junho de 2014

013 - Che, o duplo

Ernesto Guevara [dizem] nunca teria se tornado Che se [em certa noite de nuvens negras de 3 de setembro de 1946] não tivesse dobrado à direita em um beco sem nome a 50 metros da Calle Corrientes. Ao dobrar, encontrou [segundo os dois únicos relatos a respeito, ambos (previsivelmente) de videntes] uma garota [de brincos vermelhos e obviamente belíssima] que levou o [desengonçado] ginasiano a passear por uma tranquila Buenos Aires.

O Obelisco lembrou a ela do sacrifício do profeta da Judeia [segundo ela, tão portentoso quanto inútil]: os perigos do Excesso de Retidão [disse com seriedade mais sedutora que um sorriso]. Caminharam [ela virava o rosto ao passarem por um solitário mendigo] com carinho e tristeza mais profundos que a Aurora Austral – essa péssima figura de linguagem ele a escreveu no único poema que dedicou a ela.

E sua imaginação [já ligada à dela] lhe revelou: casariam; teriam sete filhos [nos tempos antes da pílula]; preocupações e êxtase se seguiram – e a morte, em algum hospital em La Plata – não tantas décadas depois assim. Os pobres não teriam seu herói – e não lhes faria falta.

Se tivesse dobrado à esquerda – mas dobrou à direita. A garota ficou a dez metros [o suficiente para nunca se conhecerem]. Ele viu um homem pobre [e não virou o rosto] – e o resto acabou na Sierra Maestra.

Explicam que a garota era na verdade aquele, de rabo e chifres, disfarçado – explicação esta que nunca teve força pois o próprio Che, ateu renitente, nela nunca acreditaria.

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