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segunda-feira, 30 de junho de 2014

025 - O Absoluto se move

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Nicolau teve sonho: um abstruso sonho de tons violeta, no qual viu um ovo se romper.

Não era [no sonho] ainda o auge da tarde. [E uma falta infinita de vento fazia uma irrealidade que lembrava ao menino Nicolau que ele sonhava]. Do ovo não saiu um idílico pintinho – e sim uma forma [que dançava e se eriçava em penas e pele nua, e se debruçava e esgoelava] que assustou o garoto [que não correu, pois sabia ser impossível correr dos sonhos, tendo de esperar que acordasse].

A forma cresceu sobre o mundo [curiosamente poupando o menino] abrangendo a tudo em curiosa inércia. Um deus [que a Nicolau pareceu Thor] surgiu e sumiu por um par de segundos. Um empregado [o pai do garoto tinha muitas moedas de ouro] sacudiu-o pelo cobertor e findou o delírio.

Cinco décadas depois [torturado pela culpa de não crer plenamente no que dizia a Verdadeira Igreja] o Cardeal Nicolau de Cusa lembrou o sonho [e pela primeira vez acreditou que não fosse do inimigo mas de Deus]: o Ovo era a Concepção Antiga do Mundo; o monstruoso filhote era a Concepção Moderna [ainda informe]; ela crescia pois o mundo era [ao contrário do que pensavam os antigos] ilimitado; a dança representava o movimento [pois o centro do Universo se movia – e o resto com ele].

Uma versão dramática disse que o Inimigo quis aproveitar este momento para plantar no prelado os germes da descrença [daí o deus pagão] – mas foi rejeitado [o que não impediu o velho cardeal de ter medo do futuro que essas novas ideias trariam].

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