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sexta-feira, 27 de junho de 2014

022 - A Penúltima Noite de Fernando Buschman

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Fernando Buschman viveu sua última noite de 18 a 19 de outubro de 1915 entre os muros úmidos da Torre de Londres [e parecia roteiro de algum (mau) filme de suspense]: tomou do violino [um curioso violino cor quase laranja] e tocou mazurcas [não necessariamente bem] pela madrugada quase toda. Ao alvorecer [ele com a hiper-retidão dos injustos que sabem que não há outro jeito] foi fuzilado por espionagem.

Desejos de deixar últimas lembranças de coragem não perturbaram sua [mais interessante e menos conhecida] penúltima noite. [De fato, dela só sabemos por papéis deixados pelo carrasco Sir Basil Thomson, chefe do Serviço de Contra-espionagem de Sua Majestade e pioneiro da noção (hoje em dia generalizada) de que o Estado deve temer e controlar seus cidadãos].

Segundo tais documentos, o brasileiro Fernando [esperavelmente] chorou metade da noite. A outra metade pensou em refazer a vida desde a infância – e rever cada escolha que o havia levado ao patíbulo. Depois entregou-se à autopiedade [espessa neblina entrava pelas grades da masmorra]. Tolamente gritou Viva! sete vezes [ao se imaginar sete vezes herói contra o carrasco inglês]. Depois [cansado de lutar contra si] entregou-se à indiferença.

Ao morder um pedaço de pão com mortadela [e certificar-se de que ainda vivia] tomou a decisão [não necessariamente correta] de [na noite seguinte] pedir um violino e tocar músicas ruins, sendo menos verdadeiro porém com um perfil melhor para a História [que afinal não se importava com ele].

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