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quinta-feira, 26 de junho de 2014

021 - Da inutilidade dos Jogos

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Tirésias [o adivinho] em certo fim de manhã viu [dizem] o Olimpo. [Era cego mas apesar disso (ou por causa) viu-o como uma incomum pintura velada por fina seda violeta]. Os deuses [com corpo de adultos mas ar de criança não muito boazinha] talvez para disfarçar o tédio [inevitável em quem vive antes do tempo] resolveram se reunir de tempos em tempos [embora o tempo para eles não existisse] para jogar bolas, correr e atirar dardos.

Nada de mais [além de certo orgulho deusal] se o adivinho [entre nuvens pesadas e a descer do monte] não tivesse descoberto que meros mortais faziam o mesmo.

As colheitas fraquejavam – mas arrancavam pão da boca das crianças para dá-lo aos atletas. O tecido era pouco – mas o suficiente para cobrir os campeões como reis enquanto anciãos morriam enregelados. O desejo de violência [visível nos rostos de quem tentava passar uns aos outros] se cobria com uma sólida camada de palavras arrotando fraternidade – esta invisível.

Tirésias [tomado pela decepção] disse-lhes que os deuses podiam [em verdade] ser cruéis – e o eram. Que aqueles torneios eram por demais caros [e que deuses podiam se dar ao luxo de não medir os preços das coisas, mas que tal não era o caso dos mortais]. Que deveriam dedicar suas energias e recursos a se manterem vivos – e não nessas frívolas atividades – e as versões a partir daí se dividem.

Quase unânime [no entanto] é a noção de que [a partir daí] tornou-se totalmente sem visão, não enxergando nem mesmo deuses em pose de pintura.

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