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quarta-feira, 25 de junho de 2014

020 - O Deserto acaba

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Abu Zayd ibn Khaldun al-Hadrami sonhou [um sonho semelhante a uma estranha pintura tingida de amarelo] que se encontrava em um deserto [em forte calmaria] e que [mais ainda] o deserto [a poucos passos dele] chegaria ao fim.

Esta a parte concreta da história do geógrafo e explorador ibn Khaldun, constante na sua História Universal [página 31] e reproduzida em duas traduções inglesas, ambas de 1935. A parte imaginária [que constou como conjectura nas notas de fim das mesmas edições] afirma que [horrorizado com a perspectiva de um fim físico do mundo] ibn Khaldun empreendeu [apesar da idade avançada e não sem grandes dificuldades] uma viagem até os desertos de Karal-Kharogoor [que se supõe ser ao nordeste do Mar Cáspio].

Encontrou uma tundra que podia ser chamada de deserto [não era dos piores]. Em verdade, o mais forte dos seus delírios foi pensar ter visto o deus Thor [o que, para uma viagem tão mal-afamada, não foi terrível]. Mais que qualquer terror, perturbou o sábio tunisiano a solidão [que lhe dava certa inexplicável vontade de se vingar de todos os que lhe tinham feito mal, além de uma incapacidade de nem mesmo perceber em que período do dia que se estava].

Viu o fim do deserto [e talvez do planeta]: na verdade um horizonte tão fundo que o geógrafo não soube se era ilusão de ótica ou abismo. A preguiça [uma espécie de indisposição eterna, ou medo] o fez não se aproximar. E durante todo o resto de sua vida disse não tê-lo feito por respeito ao que deve quedar desconhecido.

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