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segunda-feira, 23 de junho de 2014

018 - A Completa Imobilidade das Coisas

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Um pequeno [e pouco compreendido] trecho de Proust A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras inspirou o filme [17 minutos] que estreou a 23 de junho de 1935 no Café dos Toulousinos a dois passos do Ópera de Paris. Passado em futuro indefinido, o enredo do curta-metragem [na verdade] inexiste.

Seus primeiros dez minutos [em monótono tom salmão] retratavam em tempo real: uma foto de um bebê, dois fósforos, uma xícara de leite com chocolate já meio tomada e um vaso com cinco flores [já tendo passado seu auge]. O resto se dá em um parque com o significativo detalhe da ausência de vento: uma mulher parece fazer algo [que pela distância não se sabe se é folhear um livro ou estrangular alguém – cena que se repete três vezes e meia].

As interpretações pulularam, muitas vezes abusando do direito ao estapafúrdio [algo não incompreensível, porquanto dois na plateia tinham acabado de sair da aula de poética vanguardista]: a imobilidade representava a vida antes do nascimento; com a hiperpureza que a caracteriza, potencial de um desejo de violência; a saída daquela plácida cena para o Parque significaria a decepção existencial inerente a todo ser. E a moça [representante de tal pureza e de tal decepção – seria (na verdade) um avatar de Antígona].

Os dois alunos apresentaram um ensaio com tais arrazoados ao professor. O surrealista André Breton [talvez não de todo sem razão] não os passou de ano.

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