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terça-feira, 17 de junho de 2014

012 - O Legislador sonha

Hamurabi [dizem] durante 29 anos, 7 meses e 13 dias [a contagem é incerta] não pensou em códigos. Pensou em 355 dançarinas azuis [afirmam alguns radicais que azuis na pele, mas a opinião hegemônica é que o eram nos fiapos de roupa]. [Peroram os mesmo radicais que ele não as desejava, apenas invejava sua beleza – uma opinião de novo controversa].

Em um improvável crepúsculo de nuvens fracas, um velho [que no começo pensou ser ele mesmo] e depois percebeu que era cego [e portanto não era ele] lhe apareceu e falou.

Não lhe falou pausado [a renitente mania de falar das aparições] mas assentou-se, tirou um odre de [horrível] cerveja de trigo negro da Mesopotâmia e depois de já tontos lhe falou que as orgias são ótimas [embora, depois da décima-sétima sempre decepcionem sem deixar de viciar]. Que o desejo de glória depois da morte é vão – os pósteros estão muito ocupados em empanturrar-se, copular e jogar-se olho gordo – muito ocupados em pensar em quem não veem. Que a imortalidade física [se existir] não deve ser procurada, por monótona – como permanecer na eternidade na mesma festa, por melhor que seja. E foi embora para palitar os dentes ou arrotar – e não retornou.

Vendo o vazio das coisas do mundo [e até do próprio mundo] Hamurabi pensou Vou fazer um Código. E os professores o incensam até hoje. Claro, há sempre quem diga ser essa história é por demais romântica para ser real. 

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