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terça-feira, 10 de junho de 2014

005 - Deus não prefere os pobres

As ávidas mãos que folheavam o manuscrito MSS 1783-9 do Enfer da Biblioteca Nacional de Paris (19 de maio de 1968; multidões esmagavam polícias fora; nuvens negras enquanto os jovens proibiam proibir) não encontraram os dois primeiros pedaços [um ilegível e o outro arrancado]. Leu [e banalmente não se tratava de alguma língua samoiedo-altaica mas de uma versão babilônica com elementos de picardo, ainda assim muito precária]:

...dizem que eu amo os pobres. Os ricos dizem que eu fiz os pobres [e fiz os ricos também] e ambos estão certos. Eu os fiz para que ficassem dependentes de mim. E [esse é um segredo público, mas só um Deus para revelá-lo]  eu os fiz maus. Vejo-os como numa pintura de cor neutra, como o salmão: todos iguais. A pobreza [eu o sei, pois eu sei tudo] uniformiza. Vejo-os [e suas preces] e atendo uma em um milhão, se tanto [sento[PA1] -me apenas a ouvi-las]. Sou o Absolutamente Certo. Eles não são melhores que os ricos – são apenas o que os ricos seriam, se pobres fossem. E deixo os seres nessa expectativa[PA2] , de como vão nascer – e o acaso [eu] governo tudo.

As ávidas mãos em segundos não mais existiam: uma bala [partida (dizem) da Sûreté] o levou ao encontro do autor do pergaminho. A menos, é claro, que o manuscrito (e sua crueldade) falsos fossem ].


 [PA1]Buda
 [PA2]Expectativa

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