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sexta-feira, 27 de junho de 2014

003 – A Alternativa ao Estado

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E abrirei a minha boca em parábolas; e anunciarei as coisas que estão escondidas desde a fundação do Mundo – esse trecho do Evangelho de Mateus (13,35) inspirou a obra do antropólogo francês René Girard Des Choses cachées depuis la Fondation du Monde (Paris, Bernard Grasset, com tradução em português pela Paz e Terra).

Em uma sociedade primitiva a violência se espalha por puro instinto de imitação – uns fazem mal aos outros porque outros já lhes fizeram mal antes e segue em mecanismo autoperpetuante. Só há uma forma de quebrar isso: escolhe-se uma vítima, concentra-se nela todo o mal da comunidade e ela é então abatida. Tal sacrifício se repete via rituais, geralmente substituindo-se a vítima humana por um animal. Faz-se a paz. São os mecanismos da rivalidade mimética e do bode expiatório.

Perturbam, certamente, as semelhanças com as liturgias de sacrifício nas igrejas cristãs, mas o foco aqui não é esse. O antropólogo nos lembra as dificuldades inerentes a manter o mínimo de não-violência em grupamentos sem autoridade. Estamos acostumados a ter polícia, juízes, fiscais. Mas nada disso é natural. Nós nos queixamos [às vezes com razão] de essas pessoas não cumprirem a contento seu trabalho.

A alternativa à autoridade central, no entanto, é a violência mimética: uma violência automultiplicadora, em eterna propagação. A forma que as sociedades sem Estado tiveram para quebrar essa engrenagem destrutiva foi o bode expiatório.
Sem o Estado, muito pior.

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