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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Cultura Digital busca seu enigma


A Arte desvenda um enigma, ou por outra, ela consiste em um autoenigma – esse é o trilho de várias formas de pensamento artístico, e pegamos logo um dos pesados-pesos: a corrente hegeliana. Muitos, e também Hegel, procuraram resolver a questão de como um pedaço de madeira, desde que trabalhado em uma estátua, ou um som, resultante do constrangimento do ar pelo bambu de uma flauta, podem ser diferentes de zilhares de pedaços de pau ou sons outros.

A solução hegeliana: a Arte, Midas de sempre, com um toque transforma os objetos. Por outra: a Arte se opõe ao chamado real porque este real é apenas chamado real, ele não é a verdade verdadeira. A realidade é o Espírito (Geist) e este não se manifesta ou se manifesta imperfeitamente no que chamamos de vida. A Arte é uma das três formas de o Espírito acontecer – as outras são a filosofia e a religião. Claro – ao contrário desses dois outros campos, a arte se manifesta em objetos – quadros, sons, papel. Está sujeita às limitações de todo ser individual. E as supera, transcendendo tudo, por que é arte. É a diferença entre o azul puro numa tela de Vlaminck e o mesmo azul na parede do meu prédio. O primeiro quer exprimir o Espírito. O segundo só quer exprimir Azul.

Tomemos uma manifestação qualquer de Cultura Digital. A performance Audiovisual por exemplo. No meio desta nota cito um exemplo. Luzes, ritmos, som concatenados. As luzes seguindo um padrão identificável, uma simetria em relação aos eixos vertical e horizontal, convergindo ou fazendo movimentos divergentes a eles.


A Mona Lisa tem um Enigma. E Capitu e o chato do príncipe Hamlet, com suas indiretas e seu arquicélebre vou-não-vou. Os sons e ritmos, o que por trás há deles? Que Espírito manifestam? São mais reais que o real, como uma heroína de Dostoievski parece mais real que as nossa vizinha? Se os ritmos da performance querem apenas expressar a performance, ele se negam como arte, ao menos no sentido hegeliano. Na arte há sempre um atrás-de.

A negação disso ocasiona a perda de sentido da própria Arte. A Cultura Digital, para ser Arte Digital, precisa de algo a ser desvendado pelo espectador.

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