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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Os Olhos da Alma


Caspar David Friedrich preparava a corda com a qual daria termo à vida. Decidiu que o mundo era banal e nada valia a pena ser pintado. Era a noite de dezenove de fevereiro de 1806 e não era uma noite tempestuosa.

Três anjos baixinhos e vesgos (uma óbvia alusão às bruxas de Macbeth) lhe bradaram que que o mundo das retinas físicas era irreal – só existia o que pode ser visto com o coração.

O pintor fechou os olhos físicos e abriu os da alma: os ramos dos ciprestes se tornavam mãos atormentadas de almas arrependidas que imploravam piedade, o caminhante ao longe pensava que seria capaz de duelar com o próprio Deus pelo amor de sua noiva, ondas se transformavam em arrebatamentos do homem mesquinho diante do julgamento do Além.

Caspar David Friedrich pintou as paisagens da alma enquanto os compradores enchiam seu atelier. Continuou pintando-as depois que os compradores sumiram.

Ao abrir os olhos físicos enxergou que era um velho pobre, que ninguém queria suas paisagens, e que os três anjos eram na verdade três bruxas, não necessariamente de Macbeth. 

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