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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Uma biografia não é uma biografia


O presente debate sobre a obra Getúlio, de Lira Neto, merece um esclarecimento.

As biografias irrompem nas listas de mais vendidos, no Brasil e no mundo. Também as obras históricas de cunho jornalístico, mas fiquemos com as biografias.

As biografias jornalísticas não vieram da historiografia. Um Lira Neto é menos descendente intelectual de Capistrano de Abreu que de Machado de Assis. As biografias jornalísticas vieram do romance.

A modernidade impactou as artes todas. O acaso da pintura com o advento do Impressionismo é paradigmático. As artes passaram a questionar a sua própria linguagem. Com o romance não foi diferente. O modernismo estilhaçou a narrativa, diluiu aquele personagem central com o qual o leitor se identificava e minimizou a experiência vicária, ou seja, a sensação de viver a vida, medos e desejos de outra pessoa.
A experiência vicária buscou refúgio na biografia jornalística.

Os historiadores que criticam as biografias jornalísticas fazem como um comentarista esportivo que criticasse Neymar por não fazer um bom bloqueio na rede. Neymar não joga vôlei. Os jornalistas biógrafos não se propõem a fazer historiografia. Escrevem sobre história, claro, como qualquer pessoa pode. Mas seu propósito é primordialmente criar um personagem com o qual o leitor se identifique, o qual conheça, com o qual sofra e deseje e vença junto.

Lira Neto arriscou-se imensamente ao biografar alguém cuja vida foi tão virada e revirada. Getúlio talvez cause um fenômeno curioso que existe na aviação de guerra, chamado Fixação no Alvo (Target fixation). Em condições de guerra, o piloto de caça pode ficar tão centrado no alvo que pode acabar colidindo com ele. É preciso um companheiro que grite “Sai!” e o piloto desvie o avião. Para escrever alguma novidade real sobre Getúlio talvez o melhor fosse esquecer um pouco o próprio alvo Getúlio e se ficar nos seus arredores.

As condições políticas e econômicas da Campanha Gaúcha na época produziram Getúlio. Um imenso território retalhado em latifúndios, cada qual propriedade de senhor que tinha sob seu comando cavaleiros que pastoreavam gado. Os senhores vendiam o gado gordo inicialmente para charqueadas e, no tempo de Getúlio, para frigoríficos ingleses. Seus peões cavaleiros podiam rapidamente receber uma lança cada um e ser transformados em soldados. E, a cada desavença séria entre os senhores do gado, eles o eram. O Rio Grande sangrou em guerras entre esses exércitos de lanceiros: em 1835-45 (a Revolução Farroupilha), em 1893-95 (a Revolução Federalista), e em 1923.

Nesse último ano, os senhores de terra e de lanceiros fizeram paz entre si. Uma paz difícil, mas paz. A partir daquele momento, a política dos gaúchos pôde ascender nacionalmente. Uma circunstância política e econômica produziu Getúlio. Mas por que então Getúlio chegou ao topo? Por que não Assis Brasil, Borges de Medeiros, Flores da Cunha, Batista Luzardo, Lindolfo Collor, Osvaldo Aranha, outros tantos políticos gaúchos mais ou menos da mesma época, todos bastante sagazes? Aí a personalidade do homem faz diferença. Por isso as biografias não são irrelevantes.

Não são irrelevantes, mas uma biografia jornalística não tem o propósito de ser historiografia. Trata-se de outra gênero, e deve ser julgada com regras de outra gênero de escrita.

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