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terça-feira, 24 de abril de 2012

Apontamentos para uma impossível história do Caos (5)




A Epopeia de Gilgamesh apresenta logo no início um jogo de duplicidades – o protagonista e nome da novela possui um alter ego. O régulo Gilgamesh é um homem de cidade – as cidades sumérias do vale mesopotâmico. Seu oposto Enkidu nasceu no campo, atrapalha os pastores, vive e fala com os animais. Vemos que a oposição civilização-natureza atormentava escritores desde literalmente os primeiros escritos.

As mudanças de enfoque da obra estilhaçam a narrativa em três: antes do encontro dos dois, depois do seu encontro, e a narrativa de Utnapishtim, o longínquo.

Na primeira parte, Shamat a sacerdotisa encontra Enkidu. Nada casual – Gilgamesh rei da cidade de Uruk a designara para essa tarefa. A literatura antiga prima pelo explícito – nada a ver com nossos tempos afinal pós-vitorianos. Shamat solta seu peito, expõe seu sexo, faz o homem tomá-la em sua voluptuosidade, e não se contém mas absorve a energia dele – é o que Gilgamesh ordenara, e é o que ela faz. Depois Enkidu não consegue mais falar com os animais – não é mais um deles. Shamat o leva para a cidade, ensina-o a comer pão e cerveja, não a carne dos animais arrancada a dentadas, como antes. Shamat mulher o tornou humano.

Alguns dos momentos altos da literatura vieram nos seus inícios. E Shamat é uma personagem feminina de não pouco interesse. A maioria dos comentaristas afirma: é prostituição sagrada. Isso havia muito, e as civilizações posteriores dominadas pelo judaísmo e seu filhote cristão fizeram questão de esquecê-lo. As sacerdotisas amavam fisicamente os peregrinos, por assim dizer. Era um ato de purificação. E assim o foi com Shamat e Enkidu.

Ela pronuncia uma das frases mais doces da literatura, Tu és belo, Enkidu, tu te tornaste semelhante a um deus – isso depois de amá-lo fisicamente, o que é lógico, pois antes ele não era deus senão bicho.
Os paralelos entre a Epopeia e a Bíblia são convidativos e um deles é comparar Shamat a Eva. Não vejo: Eva causa a queda e Shamat a ascensão. O ato físico envergonha a personagem bíblica – a feiticeira babilônica nem se refere a ele depois – tão natural para ela, ser sacerdotisa e ser mulher.

Há uma ideia de que a literatura antigamente era pudica. A Epopeia mostra como isso é falso, com sua coadjuvante que não deixa de fascinar: Shamat, completa e mulher.

Sigamos falando da Epopeia de Gilgamesh.

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