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sexta-feira, 9 de março de 2012

Resenha de filme - A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorcese

Fui enganado. Assisti pensando que era um filme sobre meu ídolo Georges Méliès. Não é. Interessante como a literatura se repete, tem filhotes que se imiscuem no cinema e outros. A Invenção de Hugo Cabret consiste em um Oliver Twist repaginado. O menino pobre, o mundo cruel, a refúgio na fantasia. E que fantasia: o relógio da estação de trem parisiense na qual o garoto vive tem até escorregador. As cores vivas demais deixam claríssima a intervenção dos programas computadorizados de edição de imagem. A camaradagem entre crianças – no caso, uma menina.

Nenhum questionamento – desde Oliver Twist, escritores e roteiristas contam histórias aterrorizantes de crianças sozinhas – sem se lembrar de interrogar que tipo de sociedade é essa que não cuida de seus próprios rebentos, a garantia de sua continuidade, e se essa sociedade é assim tão inevitável.

Hugo vive escondido em uma estação de trem, seus pais previsivelmente morreram, seu tio e tutor é previsivelmente um alcoólatra. O elemento que puxa a história para diante é um velho antipático dono de loja de brinquedos. Não aparece muito até sessenta e três minutos de filme, cerca de metade do total. Revela-se que aquele velho é o então decadente homem que entreviu o cinema como fantasia, Georges Méliès, então desgostoso de tudo. Fecha direito com a noção de mundo-fantasioso-de-uma-pobre-criança.

Observo: um filme de Hollywood afirmando que a Primeira Guerra esmagou o cinema de Méliès. Não tanto. Hollywood nascente mas já poderosa esmagou Georges Méliès, Max Linder e outros ídolos do antes-1914. Agora a mesma Hollywood o homenageia. Ironias, ou talvez uma volta, tipo um eterno retorno.

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