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quinta-feira, 8 de março de 2012

Apontamentos para uma impossível história do caos (3)



De guerreiros e dragões

Mircea Eliade no seu Mito do Eterno Retorno nos fala de um combate primordial. Esse evento básico, talvez o único evento realmente básico da história do mundo, paradoxalmente não aconteceu no mundo e nem no tempo. (O ensaísta romeno escrevia sobre civilizações que ele mesmo denominava primitivas, para as quais tempo e mundo eram sinônimos, ou melhor, eram indiferenciados). O combate primordial opunha um Herói ao soberano do Caos, às mais das vezes uma soberana, frequentemente um dragão ou monstro, quase sempre marinho, e em não poucos casos de três cabeças.

A mulher, o dragão, a água indiferenciavam não só mundo físico como a sociedade. Vinha o Herói. Vencia a dragoa e separava as águas da chuva daquelas do mar, criava o passar das estações e os tempos de colheita, as mulheres subordinadas aos homens e os escravos trabalhando e os senhores sem fazê-lo. Esse combate se passava antes do mundo (kosmós), e antes do tempo, ou melhor, para usar a expressão latina usada à saciedade por Mircea, ele se passava in illo tempore, naquele tempo, um tempo que não era tempo pois o mesmo não existia. Fundava a história, não fazia parte dela.

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