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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Resenha de filme: Viver, de Akira Kurosawa (1952)

A recusa de uma solução hollywoodiana

Kanji Watanabe recebe uma radiografia que revela seu estômago quase todo tomado pelo câncer. O burocrata da prefeitura de Tóquio passara os últimos trinta anos carimbando papéis – que não resolvem nada, apenas empurram problemas para outras repartições enquanto a população fica às moscas. Descobre então que estava meio vivo, toda sua vida.

O que fazer quando se recebe uma sentença de morte – diz o trailer, lembrando que decididamente não é só o caso apenas do protagonista. Watanabe tem menos de um ano. O filho e a nora pensam na herança – na verdade, ele nem consegue revelar o problema ao filho. Deixa de ir ao trabalho – com mais um mês ganharia a medalha por ter passado trinta anos sem faltar. Conhece um escritor boêmio em um bar. Este o leva para a noite – prostitutas, danças, até um esfumaçado strip-tease. Depois, encontra uma garota, sua antiga subordinada, que não aguenta mais a rotina do escritório que ela já percebeu ser inútil, e quer trabalhar agora em uma fábrica de brinquedos.

Começam a sair. É a garota que o ajuda a encontrar um sentido para esses últimos meses – na verdade para sua vida toda. A fórmula hollywoodiana para essa trama seria simples – o amor romântico como saída – o afeto da moça (sempre jovem, sem rugas e manequim 38 folgado) redimiria o homem, entre música que cresceria ao final. Em Viver, a vontade de estar viva da garota se reflete no interesse com que faz seus brinquedinhos de corda. E isso inspira o velho burocrata. A saída passa pelo seu antigo trabalho, agora visto como realidade, como forma de servir ao povo.

A saída digamos ocidental puxa para o individualismo, ou pelo dualismo. Pensamos em soluções desvinculadas da comunidade, sempre. O mais velho dos clichês é o par enamorado – alheio ao mundo. O mundo dos solitários procurando-se em pares. Tire-se isso e o cinema Made in USA desaparece.

Imaginamos que uma tradição de vida mais oriental, mais ligada ao sentido comunitário, levou à solução do filme. No final, o velho burocrata beneficiou a comunidade. E por seis meses que valeram por uma vida, viveu.

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